Desde 1996, o SUS oferece gratuitamente os antirretrovirais (ARV), que impedem a multiplicação do HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) e protegem o sistema imunológico. Com o passar do tempo, ocorreu a simplificação dos esquemas terapêuticos e a evolução da infecção pelo HIV para uma característica de condição crônica. Com isso, a Atenção Básica (AB) ganhou um papel estratégico no cuidado compartilhado, aproveitando sua capilaridade e capacidade de criar vínculos territoriais.
O que é o HIV e por que ele exige atenção da gestão municipal de saúde?
O HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) é o vírus que ataca diretamente o sistema imunológico — o responsável por proteger o corpo contra infecções. Sem tratamento adequado, a infecção pode evoluir para a Aids, estágio mais avançado da doença. Nesse momento, o organismo fica extremamente vulnerável a infecções oportunistas e alguns tipos de câncer, principalmente devido à queda dos linfócitos T CD4+.
Pessoas em tratamento e com carga viral indetectável não transmitem o HIV. Isso fortalece o cuidado individual e reduz a transmissão populacional.
Por que fortalecer a resposta municipal ao HIV e à Aids
- Reduz internações e complicações
- Amplia o diagnóstico precoce
- Contribui para metas de eliminação da transmissão vertical
- Enfrenta estigmas que ainda impactam o cuidado
- Integra ações da APS, vigilância e assistência especializada
- Garante acesso equitativo a prevenção, diagnóstico e tratamento
O enfrentamento do HIV é uma política estruturante do SUS — e os municípios têm papel central na sua efetividade.
Prevenção: a estratégia combinada como política pública
A prevenção do HIV evoluiu e hoje envolve múltiplas estratégias adaptadas à realidade de cada pessoa — a chamada Prevenção Combinada, recomendada pelo Ministério da Saúde.
1- Intervenções biomédicas
- Preservativos (interno e externo) – gratuitos no SUS
- PEP (Profilaxia Pós-Exposição) – até 72h após risco
- PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) – uso contínuo para populações sob maior exposição
2- Intervenções comportamentais
- Uso regular de preservativos
- Testagem frequente
- Educação e diálogo entre pares
3- Intervenções estruturais
- Combate ao preconceito
- Promoção de direitos humanos
- Campanhas de educação em saúde
A prevenção combinada deve estar integrada às ações da Atenção Primária e das equipes municipais.
Como atender uma suspeita de infecção?
Acolhimento: A Primeira Tecnologia de Cuidado
O acolhimento não se resume à triagem na recepção; é uma postura ética de escuta qualificada que deve permear toda a equipe multiprofissional. Para o profissional de saúde, acolher a PVHIV significa:
Validar a queixa: Permitir que o paciente expresse medos e dúvidas sobre a doença.
Respeito à identidade: Utilizar o nome social, conforme a legislação vigente, e garantir o sigilo absoluto das informações.
Postura não julgadora: Evitar juízos morais sobre comportamento sexual ou uso de drogas, focando na construção de confiança.
Diagnóstico Oportuno e Manejo Clínico na UBS
A Unidade Básica de Saúde é a porta de entrada preferencial para o diagnóstico precoce.
Testagem: Deve-se ofertar o teste rápido (resultado em 30 minutos) sem barreiras, como a exigência de palestras prévias.
Início do Tratamento: A diretriz atual é clara: recomenda-se o início da Terapia Antirretroviral (TARV) para todas as pessoas diagnosticadas, independentemente da contagem de CD4.
Conceito Indetectável: O objetivo do tratamento é atingir a carga viral indetectável. É crucial explicar ao paciente que isso significa sucesso terapêutico e redução drástica da transmissão, embora não signifique cura.
Monitoramento e Prevenção de Comorbidades
Como qualquer condição crônica, o manejo do HIV na AB deve focar na integralidade. O profissional deve estar atento a fatores de risco para agravos crônico-degenerativos, como diabetes, hipertensão e osteoporose, além de incentivar a atividade física para controle de dislipidemias e lipodistrofia.
Saúde Mental: A equipe deve investigar ativamente sinais de sofrimento psíquico, depressão ou ansiedade, que são barreiras frequentes à adesão e podem exigir encaminhamento à Rede de Atenção Psicossocial.
Estratégias para Adesão ao Tratamento
A adesão é o “calcanhar de Aquiles” do tratamento em longo prazo. A equipe deve identificar fatores que dificultam esse processo (efeitos colaterais, falta de suporte social, complexidade da rotina) e propor facilitadores.
Ferramentas: Utilize tabelas de doses, alarmes e incentive o uso de aplicativos de suporte. O vínculo com a equipe da AB é, muitas vezes, o fator determinante para a retenção do paciente no tratamento.
Atenção Especial: Transmissão Vertical
A prevenção da transmissão vertical exige vigilância constante no pré-natal.
Testagem: Realizar testes no 1º e 3º trimestres e no parto.
Conduta: Com as intervenções corretas (uso de antirretrovirais na gestação e parto), o risco de transmissão cai para menos de 1%.
Amamentação: É contraindicada. O profissional deve orientar a inibição da lactação e o fornecimento de fórmula infantil pelo SUS.
Notificação Compulsória
Lembre-se: a infecção pelo HIV (e não apenas a aids) é de notificação compulsória. Médicos, enfermeiros, odontólogos e outros profissionais têm o dever de notificar para garantir o planejamento epidemiológico adequado.
Conclusão
A inclusão da Atenção Básica no cuidado à PVHIV não visa substituir o especialista, mas somar esforços em uma rede articulada. Ao tratar o HIV como uma condição crônica manejável na UBS — similar ao diabetes ou hipertensão — reduzimos o estigma e garantimos que o usuário seja visto em sua integralidade, e não apenas através de sua carga viral.
Saiba mais sobre o assunto nas fontes consultadas:
https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/cuidado_integral_hiv_manual_multiprofissional.pdf
https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/a/aids-hiv